Quando alguém te dá as costas

Imagem e texto autoral – Regiane Silva

Talvez somos pequenos demais para caber em corações tão pequenos!

Sempre me questionei o motivo de tantas pessoas passarem por minha vida e uma porcentagem minúscula realmente ficar. Tentei encontrar os erros que cometia me punindo das piores maneiras ao dizer o quão insignificante e esquecível que sou.

Havia chegado a conclusão de que ninguém se importava realmente com meus problemas, afinal todos vão embora quando mais preciso. Posso contar nos dedos de uma mão quantos quiseram me escutar e após isso continuaram ao meu lado como se nada tivesse mudado em minha vida.

Talvez meu maior defeito foi guardar os meus problemas em um potinho para poder ajudar aqueles que eu considerava muito, em alguns momentos esperei que fizessem o mesmo por mim, porém isso nunca aconteceu.

Quem seria louco para pegar os problemas dos outros para si, não é? Eu já fui louca, e como fui! Hoje não sou mais. Às vezes me castigo ao me chamar de egoísta por ser assim, mas se não o fizer carregarei fardos dobrados e no final estarei sozinha como sempre.

Quando escrevi a frase que é o tema desse texto, eu queria me convencer de que está tudo bem as pessoas irem embora. Eu não precisava procurar o problema em mim, eu apenas não cabia nos corações delas. Por um tempo fui útil e agora não sou mais. Só preciso me convencer de que a culpa não é minha.

Minha paz – A escritora em crise #5

O canto dos passarinhos, que voavam ao redor de minha casa, estava mais alto do que nos dias anteriores. A primavera havia chegado junto com uns dias de chuvas, a natureza toda parecia contente. As borboletas dançavam pelo jardim, intercalando entre as flores e dividindo espaço com as abelhinhas.  

Fechei meus olhos e deixei a brisa daquela manhã bater contra meu rosto, ao respirar fundo cada músculo do meu corpo relaxou. Eu estava muito tensa, mal havia dormido a noite. O dia de amanhã não saia de minha mente e por causa disso não estava conseguindo fazer minhas tarefas diárias normalmente.  

– Está tudo bem? – Olhei para o lado e vi meu marido encostado na porta da cozinha com uma caneca com café na mão. 

– Sim, só estou preocupada com amanhã. – Sorri me sentindo sem graça. Eu odiava estar assim, vulnerável e sem controle. 

– Vai dar tudo certo, não é a primeira vez. – Passou seu braço pelo meu ombro me puxando para perto assim que se sentou ao meu lado no banco. – Lembra daquele dia? Você estava surtando antes do evento começar, quando ele começou deu tudo certo e você aproveitou cada minuto. 

– Eu sei. – Suspirei chateada por estar ansiosa daquela maneira. 

O lançamento do meu novo livro será amanhã, a livraria que minha editora escolheu era uma das maiores do país. Aguardavam mais de trezentas pessoas para a sessão de autógrafos e disseram que esse número poderia aumentar já que muitas pessoas fizeram pedidos reservas do livro pelo site.  

O pré-lançamento ocorreu na semana passada e o pequeno estoque que haviam feito para vendas, apenas para ver qual seria a reação do público, esgotou. Eu nem acreditei quando me falaram que tudo havia sido vendido!  

Acredito que isso me deixava mais nervosa. As vendas serão abertas nessa madrugada e quero que tudo seja perfeito amanhã.  

A ansiedade pela viagem que faremos naquela tarde para a capital, a onde será o lançamento, também me angustiava. Sair da minha bolha era sempre torturante. O fato de eu ter que lidar com as pessoas e falar em público sabendo que todos prestariam atenção em mim era muito assustador. 

E se eu falar algo que não devo?” 

E se eu disser alguma palavra errada? Sou uma escritora, meu português tem que ser perfeito!” 

“E se… E se…” 

Respirei fundo em 1, 2, 3 segurando o ar em 4, 5, 6 e o soltei em 7, 8, 9 e 10. Fiz esse exercício cinco vezes sentindo meu coração desacelerar e minha respiração normalizar.

– Você sabe do seu talento! Não tem com o que se preocupar, é o seu livro. – Sua  mão passou a acariciar a minha e forcei minha mente a se concentrar apenas nas sensações que aquele carinho me proporcionava. – Vai dar tudo certo! Tenho certeza.

Era tão difícil acreditar naquelas palavras, no entanto, eu precisava fazer minha parte. Ficar remoendo esse medo do que supostamente poderia acontecer não vai me ajudar em nada e ainda corro o risco de ter uma crise de ansiedade que me impediria de estar no lançamento.

– Você tem razão. – Sussurrei enquanto travava uma batalha contra aqueles pensamentos negativos.

Segurando minha mão fomos até o centro do quintal sentindo o sol agradável tocar nossa pele enquanto nos abraçávamos sentindo o bater do coração um do outro. Mesmo sem música, apenas com o canto dos pássaros passamos a dançar abraçados.

Apesar de meu marido não conseguir entender exatamente o que eu sentia, ele fazia de tudo para me ver bem e eu amava esses momentos em que o mundo lá fora parecia não existir, era apenas nós dois.

Ele havia se tornado minha paz, meu refúgio para os dias turbulentos!

Eu havia entregado a ele minha paz. Sei que ela deveria ser minha responsábilidade, no entanto, não sou capaz de cuidar dela. Acredito que na primeira oportunidade a jogaria no lixo e passaria o resto dos meus dias em um eterno conflito.

Quando meus olhos se encontram com os dele vejo admiração refletida neles e me questiono se mereço ser vista assim, se mereço tanto amor. Talvez eu seja apenas uma garota de sorte, porém, não me vejo mais sem ele ao meu lado sorrindo todos os dias e me dando forças para não desistir.

Por mais que eu dificulte ou complique algo simples, lá está ele para me guiar no caminho certo por me dar sua mão e não desistir de mim.

– Amanhã vamos aproveitar cada minuto e você será a escritora mais linda de todo o universo. – Encontrei suas esferas cor de mel e me vi refletida nelas. – Eu te amo!

– Também te amo e amarei por toda a minha vida.

Autora: @regiancassiadasilva

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A Psicóloga – A escritora em crise #4

Sentada naquela sala ouvindo a música de relaxamento do rádio velho que estava no aparador ao meu lado, desabafei para a mulher loira a minha frente.

_ Mas, eu não sei o que fazer! Os pensamentos vêm e eu simplesmente os abraço e deixo que me dominem.

_ Alguém te falou algo de concreto sobre o que você estava pensando ou você viu aquilo acontecer? – Neguei com a cabeça. – O que uma pessoa, que não tem o óculos vermelho da ansiedade cobrindo os olhos como você, pensaria?

_ Ela não daria importância? – Respondi depois de pensar muito. Odiava essas perguntas, eu nunca conseguia pensar em uma resposta.

Eu recebia milhões de pensamentos diários, no entanto, sempre quando eu precisava deles, não apareciam. E esse era um dos momentos em que isso acontecia.

_ Ela poderia pensar: “Eles não mandam em mim, sou eu que mando em mim. Então vou ignorar, vou deixar para lá. Não existe provas de que isso vai acontecer, então não deixarei que me afetem.” – Concordei com a resposta. Essa era diferença entre alguém “normal” e eu. – Como se sente ao saber isso?

Como eu me sentia ao saber como alguém “normal” pensa? Sinceramente, me sentia pior do que antes. Parecia ser tão simples e fácil! Por que eu não conseguia? Porém, não é essa a resposta que ela esperava.

_ Não me sinto muito bem. – Murmurei envergonhada.

_ Você tem a responsabilidade de se sentir bem. Poucas pessoas tem esse dom que você tem. Laura, você sabe exatamente onde está o problema! Consegue vê-lo chegando e o identifica na mesma hora. Mas, cabe a você deixá-lo ficar ou mandá-lo embora. – Mordi meu lábio inferior como uma forma de apaziguar a inquietação que se instalou em mim.

Ela tinha razão!

_ Você é capaz, não vejo um problema de atraso e pelas coisas que me conta vejo muita coerência. Mas, não pode se vitimizar com seus próprios pensamentos.

_ Eu sei. – Senti minha garganta travar pelo choro que reprimi.

Saí daquela sessão de terapia exausta! Algumas vezes isso acontecia, eu ficava muito cansada mentalmente e até confusa durante o dia.

Minha psicóloga era uma mulher calma e muito simpática, fazia de tudo para me deixar a vontade. Contudo, era muito confiante e segura de si e demonstrava isso não apenas pelo trabalho, mas pela maneira de olhar e andar. Quando olho para ela vejo que estou muito longe de ter alguma segurança ou confiança.

Se eu pudesse ter uma capa de invisibilidade, com certeza, a usaria sempre na tentativa de não ser vista. Aquela sensação de incapacidade estava ali, sempre presente desde que me entendo por gente. Como ignorá-la?

Realmente, eu sentia que ela mandava em mim e não o contrário. Meus pensamentos me controlaram a vida toda, abraço-os como se fossem velhos amigos e não solto mais. Tenho a consciência de que não será de uma hora para a outra que vou mudar. Porém, surge aquele outro pensamento intruso:

Será que vou conseguir ignorá-los um dia?

Nesse momento qual caminho escolher? Ignorar ou abraçar?

Autora: @regianecassiadasilva

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Roberta – A escritora em crise #3

A cada passo que Roberta dava suas pernas tremiam. Estava na metade do caminho, mas a sensação era que a distância entre ela e seu destino só aumentava. Suas mãos estavam suando e seu coração acelerado. A vontade era de voltar para casa e se esconder do mundo fora dela. Sua casa, seu refúgio, o único lugar que sua mente se sentia em segurança.

Repetia mentalmente cada palavra que tinha a dizer e pensava nas inúmeras perguntas que poderiam fazer a ela. Passou a mão pelos cabelos, estavam no lugar, fazer uma trança embutida foi uma boa opção já que a deixava com um ar sério, mas, ao mesmo tempo, não a envelhecia.

Olhou para uma vitrine de loja, pela qual passava e deu mais uma conferida em sua roupa. Estava bem apresentável, uma blusa azul-claro com detalhes de renda branca na gola e nas mangas, e uma calça jeans escura. Voltou a andar e olhou para os pés, seus tênis estavam limpos, porém, eles a incomodaram, escolher um tênis para um entrevista de emprego não era uma boa opção.

“Por que não coloquei as sapatilhas pretas?”

Não ia ser uma boa ideia também, tênis é o único sapato que não machucava seus pés.

Já dava para ver o escritório da empresa, o nervosismo aumentou. Respirou fundo e repetiu os motivos de fazer isso.

“Foi a Jéssica que me arrumou essa entrevista, devo isso a ela já que estou há dois meses procurando trabalho. Eu preciso de um emprego para poder ter uma independência financeira e finalmente sair da casa dos meus pais. Não que seja ruim morar com eles, mas já tenho 25 anos e quero viver minha vida sem ter que ficar me explicando sobre tudo a alguém”

Eram ótimos motivos para não voltar correndo para casa. Respirou fundo novamente ao parar em frente ao interfone do escritório.

***

Suas mãos não paravam quietas, na tentativa de aquietá-las uma agarrou a outra, elas estavam suadas e geladas lhe informando que precisava se acalmar. Aquela sala fria por causa do ar-condicionado também não ajudava muito.

O homem sentado à sua frente analisava minuciosamente seu currículo. Não tinha muita coisa para ver, Roberta não tinha faculdade, apenas uns cursinhos técnicos que fez durante a época de escola. Já a lista de empregos anteriores era um pouco grande. Trabalhou em quatro empregos em cinco anos. Estava torcendo para que esse novo trabalho durasse pelo menos um pouco mais que os outros.

Tentou não ficar encarando o homem enquanto ele lia o currículo, no entanto, era difícil não fazer isso. A expectativa e o medo de que ele fizesse uma pergunta que ela não soubesse responder era muito grande.

“Deixa de ser besta, Roberta.” Uma voz falou em sua cabeça. “Tudo o que ele perguntar você vai saber responder. É sobre você as perguntas. Respira fundo, vai, três vezes.”

Concentrou-se no ar saindo e entrando pelo seu nariz, aquilo a fez desligar a voz da ansiedade que estava fazendo com que tremesse inteira. Como queria que essa voz que a acalmava ficasse presente o tempo todo.

– Jéssica me falou muito de você. – O homem baixo de cabelos grisalhos e pele morena quebrou o silêncio perturbador daquela sala. – Estamos precisando de alguém responsável. O trabalho não é difícil, mas é importante agilidade e organização.

Passou novamente os olhos pela folha que segurava e a fitou com certo interesse fazendo a moça enfiar as unhas na palma da mão de nervoso.

– Você não tem ensino superior, por quê acredita estar qualificada para esta vaga?

Roberta sentiu uma gota de suor escorrer por suas costas. A tão temida pergunta havia sido feita.

“Por que acredito estar qualificada?”

Na verdade, não se sentia qualificada, apenas precisava do emprego. Ainda não havia encontrado sua paixão na vida, apenas queria um trabalho que a permitisse pagar seu custo de vida.

É claro que não poderia dizer isso, pensou tantas vezes na resposta certa. Não era no que acreditava, no entanto, o emprego dependia disso.

– Apesar de não ter o curso superior da área, sou uma pessoa que aprende rápido. Isso poderá ser confirmado em meus empregos anteriores. A empresa não gastará muito tempo ao me ensinar e como alguém extremamente atenta, presto atenção em todos os detalhes e sei o quanto isso faz a diferença.

Não era mentira, sempre fora elogiada por isso. Porém, não se sentia qualificada para nada, nem para a vida.

***

As palavras ainda ecoavam em sua mente.

“Você pode começar na segunda-feira ás 7:30?”

É claro que ela poderia!

Enquanto voltava para casa observando com admiração as flores que a primavera trouxera, Roberta imaginou qual seria a reação dos pais ao contar que sairia de casa assim que passasse o tempo de teste e fosse efetivada na empresa.

Sua mãe não ficará contente, contudo, no final aceitará. O problema era seu pai, ah… ele não vai gostar nem um pouco. Sorriu achando graça só de imaginar as centenas de pedras que colocará em seu caminho para impedi-la de procurar um apartamento.

Não foi fácil tomar essa decisão, porém, se sentia leve e em paz para caminhar com as próprias pernas. Fará de tudo para esse emprego dar certo e conseguir ficar nele por um bom tempo.

Talvez, tendo um compromisso como o aluguel seja um grande incentivo para não desistir e pedir demissão. Era o momento de se agarrar ao orgulho e seguir em frente como a mulher forte e corajosa que sempre quis ser.

Apesar de a sensação de se esconder do mundo ainda falar alto em sua cabeça, estava decidida a se arriscar ou nunca conseguirá enfrentar seus demônios internos.

Autora: @regianecassiadasilva

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Sua pele é perfeita? A minha não

Não, esse não é um post que te ensinará a ter uma pele maravilhosa, nem irei te indicar segredos ou produtos para ajudar. Na verdade, essa postagem é apenas um desabafo de quem já tentou de tudo para ter a pele perfeita.

Já teve dias em que acordei e me olhei no espelho, o primeiro pensamento foi: “Eu queria acordar assim todos os dias”. Da mesma maneira tiveram dias em que após ver meu reflexo minha vontade era de abrir um buraco e me enterrar dentro.

Por que isso acontece?

Existem milhares de explicações, porém, a mais comum está em como vemos as outras pessoas. Será que acredito fielmente que aquela moça do comercial de creme para pele tem mesmo aquela pele sedosa e perfeita? Nenhuma mancha, nenhuma espinha e nenhuma cicatriz? É sério que ela é daquele jeito que me é vendido?

Talvez ela seja. Eu já conheci muitas mulheres com a pele “perfeita” de comercial de TV. O interessante é que essas mulheres que tem a pele bonita, de acordo com os padrões, encontram defeitos na própria dizendo que não são boas ou perfeitas.

Ai, eu paro e penso: “Puxa, se a pele dela que é muito melhor que a minha não é boa o suficiente para ela, como minha pele é enxergada pelas pessoas?”

Sabe aquele buraco que eu queria me enterrar dentro? É nesse momento que ele aparece e eu me jogo de cabeça.

Passei minha vida inteira lutando para ter uma pele bonita. Sofro com acne desde meus 10 anos de idade. Eu evitava me olhar no espelho para não ver aquele rosto nojento cheio de “feridas” e machas. Lavava minha pele umas trinta vezes ao dia e ainda não era o suficiente.

Acredito que a pior parte era ouvir as criticas em forma de conselhos que as pessoas davam demonstrando o quão ficavam incomodadas com a aparência de minha pele.

“Por que você não usa tal sabonete?

“Por que você não compra aquele creme? A filha do fulano usou e foi bom.”

Ah, se tudo se resumisse apenas nos produtos que aparentemente eu estava deixando de usar, estava bom. No entando, não era falta de cuidados muito menos falta de higiêne. Minha pele era daquele jeito, tinha genética e problemas hormonais envolvidos. Depois de muito tempo encontrei apenas uma solução: pílula anticoncepcional.

Agora sim, eu tinha a pele “perfeita”!

Então, eu estava feliz, certo? Errado.

Aquelas pílulas que me davam a pele tão sonhada também acabaram com meu emocional. Só me dei conta quando parei com elas um ano atrás. Após tomá-las por oito anos, percebi que eu não me conhecia de verdade, não conhecia meu próprio corpo. Me senti mentalmente em paz por descobrir quem eu era.

Contudo, isso não quer dizer que vivi feliz para sempre. Parei com a pílula e a acne voltou. Ela veio com tudo como um tsuname varrendo toda minha autoestima. Lá estavam elas novamente, aquelas espinhas gigantes e doloridas por todo o corpo. Se ao menos fosse só no rosto, mas não, não seria tão simples.

É complicado olhar para o espelho e não se aceitar. Evitar que alguém te toque por medo dele sentir aquelas bolinhas nojentas e doloridas. Como eu queria ignorar essa angustia que aparece toda vez que vejo minha pele e viver em paz com ela.

Gostaria de estar aqui escrevendo um texto me sentindo empoderada e feliz comigo mesma, te insentivando a se amar do jeito que é. Porém, eu perdi essa guerra e voltei com as pílulas anticoncepcionais apenas para me sentir bonita. Me envergonho disso, entretanto, apenas quis escrever a verdade.

Quero deixar um conselho aqui: Pare de se esforçar para resolver o “problema” da pele dos outros. Cada um sabe o quanto já tentou, não precisamos de “ajuda”.